O atendimento materno-infantil no interior do Rio Grande do Sul enfrenta uma crise estrutural que preocupa autoridades de saúde, profissionais da área e gestores públicos. A falta de leitos, especialmente em Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) Neonatais, aliada à escassez de médicos especialistas, tem comprometido o acesso seguro ao parto e colocado em risco a vida de gestantes e bebês.
A situação foi detalhada no relatório final da Comissão Especial de Apoio às Maternidades e UTIs Neonatais da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, aprovado após uma série de visitas técnicas, audiências públicas e escuta de profissionais da saúde em diversas regiões do Estado.
O presidente da comissão, Thiago Duarte, destacou que o diagnóstico revela gargalos históricos agravados pela falta de investimentos e pela dificuldade de manter equipes médicas completas, sobretudo no interior.
“Existem vazios de atendimento, principalmente fora dos grandes centros, onde faltam obstetras e neonatologistas para fechar as escalas. Isso impacta diretamente a segurança das gestantes e dos recém-nascidos”, afirmou o parlamentar.
INTERIOR DESASSISTIDO E LONGAS DISTÂNCIAS
Um dos pontos mais críticos apontados no relatório é a desigualdade regional no acesso aos serviços de maternidade. Em diversas cidades do interior, gestantes são obrigadas a percorrer longas distâncias para conseguir atendimento, muitas vezes em condições precárias e sob risco.
Além disso, a superlotação das UTIs Neonatais tem se tornado recorrente, limitando a capacidade de resposta do sistema de saúde em situações de maior complexidade.
O cenário é agravado pela dificuldade de fixação de profissionais especializados. A ausência de obstetras e neonatologistas suficientes impede o funcionamento pleno de maternidades, resultando, em alguns casos, na suspensão ou encerramento de atividades.
FECHAMENTO DE MATERNIDADES ACENDE ALERTA
A cidade de Pelotas simboliza a gravidade do problema. Das cinco maternidades existentes no município, três encerraram suas atividades por falta de recursos para manutenção dos serviços.
O fechamento dessas unidades não apenas sobrecarrega as estruturas remanescentes, como também amplia o deslocamento de pacientes de municípios vizinhos, pressionando ainda mais a rede já fragilizada.
RECOMENDAÇÕES PARA REVERTER A CRISE
Diante do cenário, o relatório apresenta um conjunto de recomendações estratégicas para o Governo do Estado, com foco na reorganização da rede materno-infantil.
Entre as principais medidas propostas estão:
- Ampliação de leitos em UTIs Neonatais
- Reativação de maternidades em municípios como São José do Norte e Arroio Grande
- Criação do programa estadual SUS Gaúcho – Maternidades, com incentivo financeiro específico para o setor
- Implantação e ampliação de casas de apoio para gestantes
- Integração estadual da regulação de leitos obstétricos e neonatais, com sistema unificado de comunicação
- Inclusão de hospitais federais no programa Pró-Hospitais, ampliando acesso a recursos para equipamentos, reformas e novos leitos
DESAFIO ESTRUTURAL E URGENTE
Para Thiago Duarte, a recuperação da rede passa necessariamente por investimento, planejamento e valorização dos profissionais da saúde.
“Fortalecer a rede de maternidades e UTIs Neonatais significa proteger o início da vida, reduzir desigualdades regionais e garantir segurança às gestantes. É uma questão de dignidade e de futuro”, concluiu.
A crise nas maternidades do interior gaúcho evidencia um desafio estrutural que exige resposta imediata do poder público. Sem ações concretas, o risco é de agravamento do cenário, com impactos diretos na mortalidade materno-infantil e no acesso universal à saúde — um dos pilares do sistema público brasileiro.

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